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Posts Tagged ‘CRIMES’

Coração não esquece.


Imagine que você vive num país em guerra civil. Imagine que seu filho é jovem, pardo e pobre. Imagine que esse é o perfil exato traçado pelo Estado como bandido. Imagine que o Estado esteja loteado por bandidos, brancos, ricos e jurássicos. Imagine que você perde esse filho inocente, tratado como bandido e morto com tiros na nuca. Imagine que os documentos dele estavam dentro de sua jaqueta, inclusive o holerite manchado de sangue. Imagine que a justiça arquivou o caso e não o investigou como homicídio, mas sim por ‘resistência seguida de morte’, segundo declaração do policial que o assassinou.

E ainda dizem que o Brasil vive em paz, que aqui não existe guerra…

Continue imaginando, por que parece que o brasileiro não acredita nas coisas que realmente acontecem no seu país. Continue imaginando que um grupo criminoso armado um dia resolveu afrontar o Estado, resultando na perda de seu filho, estudante que não teve aula por causa do toque de recolher e que, voltando pra casa tomou três tiros na nuca.

Imagine que como você, outras 483 mães e pais passam pelo mesmo calvário e que apenas 6% deles (cerca de 30) eram mães e pais de filhos com antecedentes criminais, mas que mesmo assim mereceriam o mesmo tratamento neutro de investigação independente de serem bandidos ou não. Imagine também que 63% dos casos (cerca de 300) tenham sido arquivados, como o de seu filho.

Imagine que no período dos ataques da organização criminosa e dos revides por parte do Estado, os números de mortos no seu estado tenham quadruplicado. Imagine que o policial que matou o seu filho tenha removido o corpo do local do crime para atrapalhar as investigações com a desculpa de que seu filho agonizava. Quem toma três tiros na nuca não agoniza, morre. Imagine que nos dois primeiros dias do confronto, a quantidade de vítimas civis e de agentes do Estado tenha sido equivalentes. Imagine que no terceiro dia essa diferença salte de números equivalentes para dez civis para cada agente morto. Imagine ainda que no quinto dia os números já chegassem a 20 civis para cada agente público morto, e do sexto dia em diante, apenas civis tenham sido assassinados.

Imagine que, a contragosto do Estado, o conselho de medicina tenha contabilizado os números do confronto, e ao contrário do que a Secretaria de Segurança Pública tenha dito na época, os números mostrem o dobro de ocorrências admitidas pelo Estado. Imagine que os laudos de 54 casos apontem para ‘execução’, e 89 casos apontam para ‘mínima chance de defesa’. Imagine que os laudos também mostrem que em média, cada vítima tenha levado 5 tiros, e que 60% dos mortos receberam tiro na cabeça. Imagine que 27% receberam tiro na nuca e que 57% levaram tiro nas costas.

Imagine que por outro lado, a perícia tenha feito laudo balístico em apenas 5,7% dos casos. Imagine que a ocorrência de pericia nos locais dos crimes tenha sido em cerca de 25 assassinatos apenas, do total de 483. Imagine que apenas 13,7% das armas utilizadas nos crimes por policiais tenham sofrido perícia, e que apenas 13,5% das vítimas tenham passado por perícia nas mãos para a busca de vestígio de pólvora, que indicaria o confronto armado alegado pela PM. Imagine que o Estado quer que você esqueça o assassinato do seu filho inocente, arquivando o processo.

Agora imagine que você vive numa democracia livre, em paz, sem guerra. Imagine-se nas novelas do globo, andando por ruas calmas sem violência. Imagine você comprando a sua revista semanal que não fala nada disso.

Apenas imagine… Imagine… Imagine…

Segue letra do F.U.R.T.O., de Marcelo Yuka que fala sobre o assunto tão comum em nosso país:

Não Se Preocupe Comigo
F.UR.T.O

“Últimas notícias…
A madrugada de hoje foi tensa no morro
Oremos juntos pela vida financeira”

Não se preocupe comigo
Mas eu não volto mais pra casa não
Mas eu não volto mais pra casa não

Não se preocupe comigo mas com o que me aconteceu
Eu sumi e eles podem levar um outro filho seu
Sem corpo, sem prova! Sem prova, sem crime!
O sal da lágrima fica no gosto
E ao costume da língua em duas falas diferentes

Mães de Acarí, da praça de maio
E outras tantas por aí
Entre o conflito e a indecisão
Entre o conflito e a indecisão

As vítimas não encontradas somos todos nós
Os que não demos adeus e nem rezamos
Nos cemitérios clandestinos da justiça

Não se preocupe comigo
Mas eu não volto mais pra casa não
Mas eu não volto mais pra casa não

Não se preocupe comigo mas com o que me aconteceu
Eu sumi e eles podem levar um outro filho seu
Sem corpo, sem prova! Sem prova, sem crime!
O sal da lágrima fica no gosto
E ao costume da língua em duas falas diferentes

Mães de Acarí, da praça de maio
E outras tantas por aí
Entre o conflito e a indecisão
Entre o conflito e a indecisão

As vítimas não encontradas somos todos nós
Os que não demos adeus e nem rezamos
Nos cemitérios clandestinos da justiça

Não se preocupe comigo
Mas eu não volto mais pra casa não
Mas eu não volto mais pra casa não

Eu que talvez esteja mais próximo do que pareça
Vago num grão da vida ou nas lembranças da beleza
Não sei se virei fim ou me perdi em mim
Mas nessa expressão posso ser história e recomeço
Psicografado, nunca esquecido ou requerido

Não se preocupe comigo
Mas com a época que devora caminhos
E destinos com tanta pressa
Apagando rastros que nos ensinam
E nos permitem a voltar

Não se preocupe comigo
Mas eu não volto mais pra casa não
Mas eu não volto mais pra casa não

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Predadores (quase) enjaulados


No início dessa crise, acho que em Setembro, bati um papo com o amigo Diogo Canina que estava no olho do furacão. Falamos sobre a crise em si, mas discutimos mais sobre suas causas e conseqüências, sempre envolvendo a questão da regulamentação de mercados financeiros.

As causas já foram bastante discutidas. As conseqüências nós sabemos desde antes da crise chegar. O ponto que mais causou discussão foi a regulamentação. Argumentava ao amigo que do jeito que as coisas vinham, e pelo pouco que eu entendia do assunto, alguma coisa teria de ser feita. Especulador daqui, gente com informação privilegiada da lá, um dia a empresa vale mil e em outro vale zero, gerenciadores de pirâmides que só se sustentavam pela enganação, tudo isso sem intervenção nenhuma de nenhum governo. Deu no que deu…

Hoje vejo que estava certo, pois grandes nomes da política mundial estão defendendo uma maior regulamentação dos mercados financeiros a fim de segurar o ímpeto dos predadores de plantão. Não contentes com os salários milionários, executivos de gigantes nacionais, usavam de informações privilegiadas para definirem suas atitudes dentro do mercado, com o intuito de ganhar mais e mais dinheiro até não ter mais lugar pra guardar. Pra que? Quando eles morrerem vão virar o mesmo pó do pobre aqui. E os seus descendentes vão ter capacidade de criarem os seus próprios ganhos, sem precisar carregar na carteira o peso de gerações e gerações de famílias que passam fome e morrem cada vez mais cedo.

Pra que acumular tanto dinheiro meu Deus? Pra ter que ficar pagando segurança o resto da eternidade e posar de maiorzão? Pra continuar alimentando o sistema que acredita que pra existir um rico, precisam existir milhões de pobres? Imagine se a natureza fosse assim! Leões estocando zebras para as próximas gerações, mesmo sabendo que os seus descendentes poderão caçar as próprias zebras!

A justiça brasileira deu um sinal de que algo pode mudar. O Ministério Público Federal decidiu processar três executivos por uso de informação privilegiada. São eles: Luiz Gonzaga Murat Júnior e Romano Ancelmo Fontana Filho ambos ex-integrantes da Sadia; e um executivo do banco ABN Amro, Alexandre Ponzio Azevedo.

Eles negociaram ações da Perdigão na Bolsa de Valores de Nova York ao saberem de uma futura oferta de compra vinda da Sadia, e pelo menos uma dessas transações parece ter sido feita por uma offshore (empresa estrangeira normalmente situada em paraísos fiscais que recebe investimentos de empresas de outros países, onde as cargas tributárias são mais altas), e como o tempo não perdoa, a Sadia faliu e foi comprada pela Perdigão. Todos eles foram demitidos e podem até pegar uma jaulinha.

Tomara que até lá, o congresso aprove o fim da cela especial para quem cursou ensino superior.

Tomara…

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